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Vernissage Rosa e Azul

Galeria

A visão do CARA sobre a exposição Rosa e Azul

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O Coletivo Artístico Rosa e Azul (CARA) buscando uma inserção mais efetiva na realidade à sua volta, enquanto Artistas Plásticos e, antes disso, como cidadãos, inseridos dentro deste contexto contemporâneo fragmentado, vem levantar a bandeira unindo-se àqueles que gritam contra todo tipo de arrogância, de covardia, de preconceito e de violência, mais especificamente neste caso, de violência doméstica contra a mulher.

Enquanto grupo, o CARA está dando seus primeiros passos, como afirma Sulamita Frois: “Um grupo novo, formado por pessoas encantadas pela Arte e convictas de poderem fazer a diferença usando seus talentos. Um grupo que abraçou a ideia de uma exposição que denuncia a violência contra a mulher, levando o apreciador (observador, o público) a refletir sobre o assunto.”

Desse modo, nos unimos no objetivo de organizar esta Mostra para chamar a atenção para essa situação lamentável, e, podemos ir além, insustentável, apresentando ao grande público uma Exposição diversificada sobre o assunto. Através de vários tipos de linguagem, como vídeos e instalações, de estilos, como desenhos e pinturas, além de palestras com profissionais da área, queremos chamar o espectador à uma reflexão.

Para Carla Roncarati, “participar da Exposição Rosa e Azul é de extrema importância, pois possibilita que, por meio da Arte, possam ser geradas reflexões e indagações pertinentes para a conscientização e mobilização em torno de uma causa, que deveria inexistir na sociedade. A mulher conquistou espaços relevantes em todos os âmbitos, e é inconcebível que vivencie a “idade da pedra” por conta da o pressão e poder de uma parcela da sociedade que insiste em práticas machistas.”

Ao poetizar sobre a figura e a força feminina, Mara D’Almeida nos convida a refletir: “Mulher… Sexo frágil? Parece, mas só “parece”. Será fraqueza não hesitar em chorar quando sentes dor? Ou quando geras uma vida e sentes a dor do parto? Ou ainda quando permites que o homem te seduza e depois te conduza? Como poderias ser fraca? Sendo fraca, és forte, e sabes viver o amor em toda a sua plenitude. E até para expressar tua força, atua com maestria e com muita discrição. A mulher é forte, pois desde o ventre uterino, todo embrião em seus primeiros dias é do sexo feminino. Essa é a Mulher, o forte sexo frágil.”

Sintetizando a ideia da proposta do grupo, conclui Sonia Maia, a idealizadora da Exposição: “Onze artistas plásticos representam alforriadamente em suas obras, o anseio de mudança nos relacionamentos domiciliares capixabas. Através da fotografia, pintura, desenho, instalações, e da escultura e vídeo dos artistas convidados, expressam a vontade de se manifestar a favor da não violência domiciliar. Para tanto, se apresentam à população, exercendo a liberdade de fazer e de expor. Encontram-se em processo contemporâneo, quando estimulam e agregam arte aos enigmas da vida.”

As palavras dessas quatro artistas plásticas e expositoras da Mostra traduzem bem o olhar feminino contemporâneo que, apesar de revelar aflições e contrariedades sobre vários aspectos da situação atual – principalmente na questão da violência doméstica contra a mulher – através de seus trabalhos, apontam possibilidades reais de significativa melhora nesse quadro tão deplorável. São olhares cheios de graça e de esperança, mas também de força e de coragem, próprios da mulher, olhares esses que, unidos ao restante do CARA, estarão sendo revelados nesta Exposição. Olhares, corações e vozes.

 Jorge Magalhães

Exposição Rosa e Azul

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ROSA E AZUL

Um grupo de jovens artistas expoentes decide enfrentar o tema da violência doméstica organizando uma exposição. Escolheram dar o nome de Rosa e Azul por representar as cores do sexo feminino e masculino. Num primeiro momento parece contraditório, pois as cores rosa e azul transmitem uma tranqüilidade que não combina com o tema: violência doméstica. Seria romântico por parte desses bravos expoentes? Acredito que mais do que românticos, esses artistas sabem que ambos, homens e mulheres são vítimas da mesma forma. A mulher porque sofre com a violência deflagrada sob seu teto, expondo seus filhos a desgraça, muitas vezes sendo o esteio da família. O homem por estar doente, incapaz de dar e sentir afeto, e mais, após o ato da violência doméstica, está fadado a ser encarcerado apodrecendo num ambiente hostil, e de mais violência.

Desta forma esse grupo formado por Carla Roncarati, Sonia Maia, Jorge Magalhães, Araceli Silva, Sulamita Frois, Waldo Dalvi, Ludmilla Assis, Mara D’Almeida, Sabrina Vieira, Aluísio Vaz, tendo como convidados, Shelley Bomfim e Penithencia, estão se expondo ao propor uma exposição que discuta, sensibilize, dê visibilidade ao tema da violência doméstica.

Carla Roncarati propõe um objeto sensorial onde o apreciador poderá interagir entrando num ambiente fechado, construído de madeira, sendo seu interior forrado de corações que poderão ser tocados com o corpo. É uma ode ao afeto, uma tentativa que o fruidor do objeto seja tomado por um surto de amor, paz e conciliação.

 

Ao contrário do objeto sensorial, Sonia Maia escancara frases preconceituosas, que elevam à mulher a categoria de objeto descartável, e como suporte para esta ironização do cotidiano, escolheu expô-las em camisetas, que poderiam ser veiculadas no corpo de qualquer um, mas prefere deixá-las espalhadas na escadaria do espaço expositivo, como numa vitrine. Uma vertente pop, quem sabe uma grife para machões. Talvez se a humanidade tivesse esta coragem de se expor e tomar realmente seu partido, a violência poderia ser sanada.

Sulamita ama as cores: …a cor, seja ela qual for, me encanta, me atraí. E quando duas ou mais cores se unem, então, é como se fosse mágica…” Cria seus desenhos no papel e os colore com maquiagem para rosto. Seu traço fino de representar mulheres, as elevam a categoria de princesas, algo inatingível, mais parece uma deusa criando suas criaturas, E é. A qualquer momento parece que vão ganhar vida e sair do papel.

Ludmilla brinca como designer gráfica se apropriando da música Maria, Maria de Milton Nascimento e compõe uma figura de mulher. Sendo a música um ícone da representação feminina, seu desenho não poderia deixar de sofrer influências, pois ali está a Maria força a Maria da magia, a Maria, Maria. Consegue transpor ao desenho a fragilidade e a fortaleza que compõem o sexo feminino. Seu trabalho pode estar na galeria, mas também, deveria estar em todos os postes da cidade, em todos os murais, em espaços públicos, como uma inserção ideológica ao Afeto, e não a violência.


Sabrina Veira e Mara D’Almeida utilizam o desenho para apresentarem seus trabalhos nesta exposição. Sabrina fragmenta o rosto de uma mulher partindo das manchas da aquarela. Como nas revistas de Mangá, interrompe a expressão do desenho, deixando para a imaginação de quem o vê completar o real sentido daquela expressão. O suspense toma conta da cena, e esse mesmo suspense causa o silêncio da violência que tantas mulheres sofrem. Mara prefere encarar os fatos de frente, como ela mesma escreve: …como é difícil olhar nos próprios olhos, erguer a cabeça e dizer para si mesma que é preciso enfrentar a vida… mesmo dando este cheque-mate seu desenho é limpo, doce, com proporções corpóreas dando a impressão de estar falando de igual para igual ao apreciador da exposição. Todo esse enfrentamento é mostrado por Mara sem insatisfações, descontentamentos ou agressividade, tenta mostrar a mulher que é a mulher de verdade.


Jorge Magalhães, um apaixonado pela beleza, pelos dias ensolarados, pelos clássicos da história da arte, um admirador em potencial das mulheres. Sabe os valores que elas possuem, os preserva, contempla e por conseqüência sua alma carrega o feminino. Sua pintura retratando flores traz alegria e paixão porque para Jorge, no mundo não existiria violência, principalmente a doméstica.

O cravo brigou com a rosa embaixo de uma sacada… foi assim que Araceli  Silva definiu seu trabalho. Como fotógrafa profissional escolhe detalhes da cena real de um casamento, que muitas vezes passam despercebidos para quem não está atrás de uma lente, mas carregam um simbolismo árduo: o que vem a ser a flor do buquê depois de murcha? E o cravo na lapela do noivo? Como artista, pode recriar a cena sem depreciar o ato fantástico do casamento. Mas também evidencia simbolicamente o vazio da violência.

Aluisio Vaz com seus desenhos/pintura apresenta o caos da paisagem urbana. Não esconde a tragédia do cotidiano que deixa marcas profundas em quem sobrevive. Coloca o dedo na ferida da dor e toca com profundidade, para que este ser violentado grite. Como suas pinturas não são figurativas, toda a superfície parece um close da tragédia, do espirro de sangue encontrado no canto de uma casa.

Waldo Dalvi mistura a forma do corpo feminino com nuances de um geografia imaginária. Como bom carioca gosta de dias quentes e ensolarados demonstrando em sua pintura a perfeição da mulher, assim como é a natureza.

 

Para completar essa exposição em prol da discussão da violência doméstica, o grupo convidou Shelley Bomfim e Penithencia para fazerem parte da coletiva. Shelley apresenta o vídeo Zizi todo verso toda prosa, onde registrou a história de sua Vô guerreira, repentista que adorava dançar e feliz por constituir uma família criada pelo viés do afeto. Penithencia artista consagrado abrilhanta essa exposição com suas esculturas formalistas que namoram com o figurativo, com linhas suaves e sensuais.

 

Como nos ensina Bakhtin …o mundo da ação é o mundo do futuro interior previsto… Como poderíamos entender o futuro interior previsto nesta cena, onde jovens expoentes resolvem por meio da arte transgredir os cânones dos conceitos de galerias e museus na era contemporânea com um discurso panfletário? Talvez esteja na hora de revermos conceitos e utilizar os meios que a arte nos proporciona para levantar discussões necessárias em nossa sociedade atual. O meio artístico em toda sua história foi palco ideal para socializarmos anseios preeminentes, assim podemos pensar num futuro posterior sanado da violência, seja ela em qualquer local. Quem sabe?

rosana paste

artista plástica, profº MS do centro de artes UFES